Desde 20 de janeiro de 2025, quando Donald Trump reassumiu a Casa Branca, os indicadores de viagens internacionais aos Estados Unidos entraram em trajetória de enfraquecimento. Em julho, as “overseas visits” caíram 3,1% na comparação anual, marcando o quinto mês de retração no ano, segundo dados do National Travel & Tourism Office (NTTO).

A virada para baixo foi captada também por análises independentes. A Tourism Economics (Oxford Economics) revisou suas projeções e agora estima queda de 8,2% nas chegadas internacionais em 2025, uma inversão relevante em relação às expectativas de alta divulgadas no fim de 2024. Ao mesmo tempo, o gasto de visitantes estrangeiros deve recuar cerca de 7% (de US$ 181 bilhões em 2024 para menos de US$ 169 bilhões em 2025), fazendo dos EUA o único país entre 184 analisados pelo WTTC com queda de receita turística neste ano.

Os recuos não foram uniformes, mas há padrões claros por origem:

Canadá. É a queda mais aguda entre os grandes mercados. Até maio, as chegadas canadenses estavam 16,8% abaixo de 2024; até julho, o quadro piorou, com −25,2% no acumulado do ano e um tombo de −37% nas entradas por via terrestre em julho.
Europa Ocidental. No agregado, as visitas da região recuam −2,3% no ano (até maio), com diversas praças negativas em meados do verão do Hemisfério Norte.
Índia. Junho marcou a primeira queda em mais de duas décadas para o mês, com −8% ante junho/2024; no acumulado do ano, as visitas indianas estão −2,4%.
Coreia do Sul. Entre os 20 maiores mercados, foi uma das maiores retrações até maio: −11,3% no ano.
China. As chegadas seguem muito deprimidas em relação ao pré-pandemia: julho ainda estava 53% abaixo de 2019, sinal de recuperação incompleta e sensível a barreiras adicionais.

Essas quedas se somam a sinais de fraqueza setorial. Relatos de destinos e empresas mostram menos estrangeiros em cidades que dependem de visitantes de fora. Em Las Vegas, por exemplo, os visitantes internacionais caíram 13% em junho na base anual.

Mas, acredite, houve bolsões de crescimento, sobretudo nas Américas: México (+13,9% no ano até maio), Argentina (+20%) e Brasil (+4,6%) têm sustentado parte do fluxo, um alívio que, porém, não compensa a fraqueza de Canadá, Europa e Ásia.

Especialistas apontam um conjunto de choques de percepção e fricção desde o início de 2025:

1. Ambiente regulatório mais restritivo. Em 9 de junho de 2025, entrou em vigor um banimento de entradas para nacionais de 19 países, ampliando impedimentos e incerteza em mercados já sensíveis.
2. Novas taxas e custos. A implantação de uma “visa integrity fee” de US$ 250 (a vigorar em 1º de outubro) eleva o custo total de visto para US$ 442 para viajantes de países fora do Visa Waiver, com impacto potencial sobre China, Índia, Brasil, México e Argentina.
3. Exigências adicionais. O governo propôs fianças de até US$ 15 mil para certos vistos temporários e restringiu critérios de dispensa de entrevista presencial, aumentando a fricção de entrada.
4. Condições macro. O dólar forte encarece o destino EUA para europeus e asiáticos, enquanto companhias aéreas e operadoras relatam menor apetite para viagens aos EUA em 2025.

Esse conjunto de fatores desalinha oferta e demanda justamente no período em que se esperava a normalização total pós-pandemia. A Associated Press registrou que o desaquecimento já é sentido por grandes destinos e por cidades de fronteira, com queda acentuada do fluxo canadense.

O efeito-renda de visitantes estrangeiros (que gastam mais e ficam mais tempo do que o turista doméstico) é crucial para hotéis, restaurantes, varejo e atrações. Com a projeção do WTTC de –US$ 12,5 bilhões em 2025, multiplicadores regionais indicam perda de receita e empregos, sobretudo em estados que dependem de Canadá (Nordeste/Grande Lagos) e Europa (costas e grandes metrópoles).

Olhando adiante, a Tourism Economics prevê 2025 negativo em chegadas (–8,2%) e aponta adiamento do retorno aos níveis de 2019 em diversos mercados emissores; as “overseas visits” já acumulam meses seguidos de queda no meio do ano. Alívio pontual pode vir de uma desaceleração do dólar e da manutenção do bom desempenho do México e de partes da América do Sul; por outro lado, novas barreiras de visto e a permanência do travel ban tendem a prolongar a fraqueza de Europa e Ásia.

Em suma, desde o início do governo Trump em 2025, os EUA voltaram a perder tração no turismo internacional, com quedas marcantes de Canadá, Europa Ocidental, Índia e Coreia do Sul, retração mensal de −3,1% nas “overseas visits” em julho, e uma perspectiva anual de queda em chegadas (–8,2%) e gastos (–7%). A depender do desenho final de taxas, entrevistas e proibições de entrada, o país pode intensificar o desvio de demanda para destinos concorrentes, inclusive no próprio continente, até que o ambiente regulatório e de hospitalidade volte a transmitir previsibilidade e um verdadeiro sentimento de… WELCOME!

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